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              As paisagens do Outono em Sernancelhe
 
As altas temperaturas e os longos dia do verão começam a esvaziar-se.
O apogeu da grande concentração de pessoas, sejam os emigrantes de férias, ou mesmo os próprios habitantes em convívios, com as inerentes festas e espectáculos, situa-se no Verão.

Mas esta dinâmica explosiva, exaustaste e mesmo desgastante vai-se espairecendo e amortizando à medida que os "forasteiros" regressam para os seus núcleos de residência, quando frio da noite começa a surgir no rosto, e os dias a encurtar: é o início do Outono, da reflexão e do regresso à estabilidade.
O esforço e a exigente obrigação diária do agricultor no tratamento e manutenção da sua horta ou pomar, seja com a rega para oferecer à sua flora a principal fonte de vida, seja com as adubagens ou o regular tratamento das folhas e frutos com químicos, atinge também a altura mais desgastante no Verão, e ainda sem ter a noção real e a
compensação da qualidade e quantidade

da colheita que vai obter então no Outono,  período da maturação e da colheita.

Consequentemente o Outono será para o trabalhador rural o seu período de "climax": recompensa em ver o seu produto final amadurecido, única possibilidade do ano em angariar dinheiro com o negócio que efectua, e também o único tempo do ano em que pode parar e reflectir.
Simultaneamente com este abrandamento dos trabalhos, dificuldades e sacrifícios do homem rural, também todo o mundo físico envolvente, sofre uma diversidade de modificações e transformações. É que no espaço curto de poucas semanas, todo o cenário da natureza se transforma de tal maneira, que mais parece que viajamos para uma outra longitude do Planeta,

  do que propriamente da passagem da época do Verão para o Outono:

 


-De calor e temperaturas abrasadoras, surgiu o frio e a geada.

-Do tempo de seca, surgiram as primeiras chuvas, dum modo geral abundantes e com inundações.

-Os dias repletos de sol e luz, que parecem não ter fim, passam a ter uma dimensão muito limitada e acanhada no Outono

-De noites com Céu límpido e  iluminado de estrelas, o firmamento modifica

 

a abóbada da sua fisionomia numa autêntica coloração acinzentada e pintalgada de nostalgia - é o Outono.
Consequentemente no ciclo de toda a flora que vegeta neste território de clima continental beirão, observam-se então as maiores transformações nos retratos e cenários da natureza.
  - As verdejantes folhas que ensombram todo o tipo de vegetação caduca, sofrem uma tal diversidade de mutações em coloração, que as manchas da paisagem e arvoredos, mais parecem uma tela salpicada das cores vistosas. E de tal harmonia que, à nossa retina mais parece uma ilusão tridimensional, do que a pura realidade da natureza Outonal.

- As árvores então enamoradas com o frio e vento que sopra e vegeta sobre as suas folhas, abanando como que a gemer, e em dócil ternura deixam-se despir, como que pedindo compaixão e protecção. Os ramos emergem então, e todos os braços suplicam a sua nudez.

 

-O chão que, ou se encontrava lavrado ou com vegetação selvagem, fica então impregnado de toda esta variedade de folhagens, e que são já correspondem a um verdadeiro estádio de adubação natural.

Depois vamos observar as hortas, que dum modo geral toda a população cultiva e trabalha. Essencialmente servem mais para o cultivo e consumo próprio dos legumes semeados e plantados, e não tanto para comercialização na nossa região.

-Encontramos abóboras no seu amarelo torrado a testemunhar a outonal maturação e a rogar ser colhida.

-Muitas estacas de pau abandonadas,

 

despidas dos feijoeiros que as cobriam, com os resquícios acobreados da folhagem.
Enfim, toda esta terra recheada das sobras do parto das colheitas, vai então repousar por algum tempo de todo o processo de vida, de labuta e transformações que se vão observar nos outros períodos do ano. E tal suaviza-nos a alma de nostalgia.
 
  É o descanso da vida vegetal no Outono, a pausa necessária da terra fecundada.
Esta  letargia, nostálgica doçura, em sinfonia de  folhas e vento,  culminou aqui,  no amontoado de folhas esvaídas para nelas reflectir-mos o nosso significado também no Outono da vida humana.
As folhas ao cair, evocam a brevidade dos nossos dias. O Outono das pinceladas de azul-água, a coloração acinzenta do céu e a timidez e sofrimento das árvores despidas, imploram-nos  uma introspecção e reflexão sobre  este viver cíclico, sempre em transformação e  numa velocidade alucinante.
 
E com esta reflexão do Outono, cada um pensa na realidade, e se interroga deste porquê cíclico da queda das folhas: provavelmente para esculpir no tempo a brevidade das nossas vidas...
              António Canotilho

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